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  • Bruna Fachetti "O Poder do Ator"

Por que estudar atuação?

Atualizado: 14 de Ago de 2020

A velha história de que você não contrata um advogado, eletricista, engenheiro sem estudo para defender e valorizar a profissão dos artistas é recorrente. Mas o que significa, exatamente, estudar atuação? Uma técnica pode nos levar à uma performance verdadeira, única e dinâmica? Como recriar a vida, que é tão espontânea, a partir de um método?

Quando eu comecei na carreira, estas perguntas nem se passavam pela minha mente. Eu decorava o texto e o interpretava de acordo com minha intuição ou tentava reproduzir o que via na TV. O subtexto passava longe, para mim a personagem sempre dizia a verdade. Por vezes, eu tinha um resultado interessante, mas não sabia por que ou o que me conectava a ele. Mesmo assim, na maioria das vezes, o meu resultado era insatisfatório para quem me assistia, e eu não fazia ideia de como melhorá-lo. “Precisa ter mais verdade” e “faltou emoção” eram feedbacks que eu recebia, mas sem saber como aprimorar.


Como atores, devemos ser capazes de analisar qualquer texto e interpretá-lo, se quisermos, com dinamismo e veracidade. Mas como??? Eu estava longe de interpretar a infinidade e complexidade que existe num ser humano de verdade: pensamentos, imagens do que ele fala ou ouve falar, anos de história e relações que envolvem não só amor ou só raiva, mas ressentimento, frustração, medo, insegurança, alegrias, ciúmes, traumas diversos, todas as camadas que podem estar presentes em uma cena de briga ou primeiro encontro. Reproduzir a vida humana em sua espontaneidade, como se o texto dito pela milésima vez saísse da minha boca pela primeira, exigiu-me uma técnica e, ainda, muita prática. Eis que, na minha busca por solução e aprimoramento, eu encontrei algumas ferramentas que podem te levar a um resultado satisfatório, todas nascidas do pai da atuação, Constantin Stanislavski.


Há muitos anos eu li seus livros, mas algo em mim faltava. Foi então que eu descobri O Poder do Ator, um guia prático, passo a passo, para se chegar ao resultado que eu tanto buscava. Descobri que sua autora, Ivana Chubbuck, foi reconhecida pela imprensa russa como o Stanislavski do século, dado o aprimoramento e abordagem moderna que trouxe para a sua técnica: vencer. Doze passos para ser um vitorioso na vida e na arte. Antes de nos aprofundarmos nela, é preciso destacar Lee Strasberg, Meisner, Uta Hagen, Stella Adler, Eric Morris, dentre outros cuja importância para a atuação é imensurável e onde você pode encontrar caminhos para se tornar um grande ator! Ser capaz de reproduzir “qualquer” vida humana com toda sua vivacidade é um tanto quanto ousado! Irei mais longe ao dizer que, além disso, a missão da arte é empoderar o mundo através das nossas escolhas enquanto artistas, trazendo esperança para o público de que é possível vencer, apesar dos desafios. Não importa o final da sua história, ganhe o direito de chegar até ela. Busque superar as barreiras e interpretar a solução, ao invés do problema.


Mas antes, estude. Investigue-se enquanto ser humano, até mesmo os gênios precisam aperfeiçoar-se! A técnica Chubbuck lhe permite isto ao conectar você à sua personagem através da sua experiência de vida. A técnica Chubbuck tem esta abordagem. Ela te permite viver a personagem através do uso da personalização. Você primeiro define a trajetória da personagem, o que ela busca ao longo de todo o roteiro, e aí vê onde, na sua vida, a luta dela é a mesma que a sua. Exemplificando, imagine-se interpretando um assassino. Para vivê-lo verdadeiramente você precisa defendê-lo, e não julgá-lo. Tão pouco interpretar a ideia do cara mau fará da sua atuação rica e emocionante, já que ser sincero não é suficiente. É preciso fazer escolhas ousadas. Para que você não precise viver as duras realidades da personagem, você precisa primeiro entender qual a necessidade humana básica que está por trás do comportamento dela. Normalmente, pessoas que chegam ao extremo de retirar a vida de alguém precisam sentir que têm poder, e nada é mais poderoso do que matar. Essa necessidade de retomada de poder normalmente vem de uma infância abusiva, onde a pessoa não pôde se defender do abuso que sofreu e agora, enquanto adulta, a maneira que encontra para retomar seu poder é matando vítimas que se pareçam com seus abusadores. Você pode nunca ter matado, mas já se sentiu completamente sem poder e com uma necessidade extrema de retomá-lo. Talvez um diretor o tenha humilhado e feito duvidar da sua capacidade de modo cruel, ou um parente o tenha maltratado, talvez você tenha tido um relacionamento amoroso abusivo ou sofreu bullying, etc. Há infinitas possibilidades, você precisa se investigar e ver qual lhe afeta mais. Como ator, você pode “matar” esta pessoa na sua fantasia, através da personagem.




É assim que você usa seus traumas para vencer, pois ao invés de tornar-se vítima das circunstâncias você cria personagens interessantes, dinâmicas, com seus maneirismos únicos, e constrói com aquilo que, de outra forma, o destruiria. Minha dica é: não importa a técnica que você usa, estude e investigue-se enquanto ser humano e lembre-se: até mesmo gênios e mestres como Stanislavski desenvolveram-se e foram aperfeiçoados!


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